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Durante seus 100 minutos de apresentação, 5X Comédia se apresentou uma peça bastante peculiar. Composta por cinco sketches, cada uma com um personagem e ator diferente monologando (ou dialogando unilateralmente, como preferir) sobre um determinado assunto. O elenco composto por Débora Lamm, Bruno Mazzeo, Fabiula Nascimento, Thalita Carauta e Luis Miranda viveram os principais personagens nos segmentos intitulados Branca de Neve; Nana, Nenê; Arara Vermelha; Milho aos Pombos; e Madame Sheila, respectivamente.

Com Branca de Neve, a peça começa com o pé esquerdo. O ritmo pouco marcado do sketch deixa tudo um pouco vergonhoso, com piadas que se estendem além do necessário e uma comédia física que não funciona de maneira alguma. Débora Lamm interpreta a personagem título, em um universo onde os filmes da Disney sabem que são filmes e são reconhecidos por isso. Porém, mesmo com a sua vida "feliz", Branca de Neve está ficando obsoleta e antiquada para os padrões dos filmes atuais da Disney, fazendo com que repense suas decisões na vida. Apesar de haver pouca graça no segmento, escrito por Julia Spadaccini, as entrelinhas do texto se revelam bastante interessantes. Relacionada com uma mulher tomada pelo machismo, Branca, ao decorrer do sketch, começa a perceber a necessidade de uma mulher ser feminista: livre e podendo buscar a própria felicidade. Não é à toa que a personagem interpretada por Lamm começa e termina o segmento lendo O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir.

Nana, Nenê continua a peça, contando a história de um homem que foi preso e, no curso de 15 minutos, tenta provar sua inocência, contando uma história que envolve seu casamento, seu bebê, sua vontade de dormir e um boneco do George, irmão da Peppa Pig (uma das piadas recorrentes em todo o espetáculo). Aqui, Bruno Mazzeo consegue segurar mais a apresentação, ainda que existam frases e momentos extremamente fora de contexto, dando um sentimento de vergonha alheia. Porém, o ator ritma mais a apresentação com seu jeito, por vezes, frenético de falar e se movimentar, além de ser uma narrativa onde quase interage com o público. Quando menciona o livro do título e diz que o mesmo é violento, por exemplo, parte da plateia entendeu do que ele estava falando e concordou, fazendo com que ele retrucasse dizendo "não é, verdade? É muito violento". Assim como na apresentação anterior, o texto procura colocar um discurso político escondido, desta vez indo de encontro diretamente à extrema direita brasileira.

Fabiula Nascimento faz parte do, com certeza, mais estranho e bizarro segmento de todo o espetáculo. Intitulado Arara Vermelha, a apresentação segue um dia do personagem título em uma pet shop, enquanto reclama que os cachorros e gatos tem mais privilégios que ela, um pássaro. Mesmo que algumas piadas físicas não funcionem (como tentar imitar o gaguejar e os tiques do animal em questão), o sketch rende boas piadas e se mostra ainda mais politizado. Em certo momento, a arara reclama que o cachorro de pelos brancos sempre são levados primeiro, fazendo uma relação direta com o racismo. Não apenas racismo, mas a dificuldade que uma raça sofre só por pertencer a mesma (como no momento em que conta um pouco sobre sua infância, dizendo que morava dentro de uma caixa de frutas e foi raptada do seu habitat natural). Indo até mais a fundo, o texto escrito por Jô Bilac ainda insere referências e questionamentos em relação à violência policial.

A interessante e divertida Milho aos Pombos mostra Thalita Carauta como uma atriz figurante (chamada Underline, por sinal) fazendo um teste para tentar conseguir um papel (que só é revelado no último momento), onde precisa interpretar uma mulher dando milho aos pombos. Thalita mostra que consegue divertir uma plateia, utilizando seus trejeitos e um sotaque carioca extremamente forçado, mas que quase nunca se mostra inefetivo, arrancando risadas do público. Milho aos Pombos fala muito sobre autoridades e minorias, mostrando que, mesmo que as minorias (representada por Underline, por ser uma figurante) possuam alguma voz, a mesma vai ser calada por uma entidade superior (representada aqui pela voz do diretor que nunca é visto). Repetidas vezes, o diretor grita "Cala a boca, Underline", ou "Volte para a posição", mostra bastante o abuso na relação "Minoria x Autoridade".

Por último, Luís Miranda toma o palco para interpretar Sheila, na melhor apresentação de toda a peça. Com o título de Madame Sheila, o segmento mostra uma mulher de classe alta contando sobre suas viagens ao redor do mundo, sempre com uma garrafa e taça de champanhe ao seu lado. Pegando emprestado referências à Monty Python, a apresentação chega a beirar o nonsense, começando apenas como uma mulher reclamando das pessoas pobres até uma sessão de ski no deserto utilizando uma montanha de gelo geneticamente modificada. Miranda mostra um total controle sobre a personagem (afinal, o texto é do próprio ator), fazendo coisas inesperadas, como jogar todo o champanhe de sua taça para cima enquanto conversa.

5X Comédia é uma peça inconstante, apresentando altos e baixos durante todo o seu decorrer. Os últimos minutos do espetáculo apresentam momentos simplesmente brilhantes, para tentar contrapor os primeiros minutos extremamente desconfortáveis e vergonhosos. Mesmo com nomes de peso, a peça poderia ter dois segmentos a menos e ser mais concisa para poder ter êxito como uma boa apresentação de comédia.