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Talvez muitos não conheçam The Room, de 2003, filme que Tommy Wiseau dirigiu, produziu, escreveu e protagonizou, sobre um executivo cuja esposa o trai com seu melhor amigo. Mas nem isso e nem as tramas paralelas fazem muito sentido. Tudo é feito de forma tão bizarra e amadora, que é difícil acreditar no que se vê. As atuações são ridículas, os diálogos hilários de tão absurdos e a narrativa é totalmente nonsense. Sem falar que o próprio Tommy Wiseau é um figuraça, com seu visual, sotaque e trejeitos estranhos. Conclusão: de tão ruim, o filme virou objeto de culto, arrebatando fãs nos EUA que lotam as sessões há anos, muitas vezes com a presença do autor, no melhor estilo pop star. E, diferente da maioria de produções deste tipo, o filme foi feito com consideráveis 6 milhões de dólares, cuja origem do dinheiro do autor é misteriosa, o que só incrementa ao caráter lendário do filme.

A história deste excêntrico diretor pelo visto atraiu a atenção de James Franco, que resolveu produzir, dirigir e fazer o papel de Tommy Wiseau, neste O Artista do Desastre, uma biografia que também funciona como um relato dos bastidores desta obra-prima da ruindade.

Em 1998, o pretenso ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão verdadeiro de James), inicia uma amizade com um colega de estudo, o esquisito Tommy Wiseau. Quando a dupla não consegue engatar uma carreira, resolvem juntos fazer seu próprio filme, mas inseguranças e problemas durante as filmagens começam a prejudicar a amizade entre eles. O desfecho, como já sabemos, será a criação de um cultuado filme na linha "tão ruim que fica bom".

A primeira coisa que esse filme nos remete é à Ed Wood, (1995), obra-prima de Tim Burton sobre o pior diretor da história que se tornou uma belíssima homenagem à paixão de se fazer cinema. Aqui, a homenagem também se faz presente, mas ela fica em segundo plano, já que o foco está no desenvolvimento da amizade da dupla (e com certeza por serem irmãos de verdade, isso deve ter ajudado na interação dos atores). Mas claro, que o humor é garantido quando demonstra os bastidores da bizarra produção. Assim como em Ed Wood, vários acontecimentos soam hilários de tão toscos, vindos da falta de noção de Wiseau para se fazer um filme.

Mesmo evidenciando o comportamento controverso de Wiseau (muitas vezes arrogante ou difícil de se lidar), o filme o trata com muita empatia e carinho, levando o espectador a ter admiração por ele, mas tampouco procura decifrá-lo, já que pouco se sabe sobre o mesmo e sua fama tem se feito desta maneira. Mas é notável o desempenho de Franco, ator muitas vezes questionável, mas que aqui desaparece no personagem, em divertida e perfeita atuação, emulando todos os seus tiques, voz e postura. O resto do elenco não conta com grande material para explorar, mas fazem sua parte, e o filme conta com várias participações de famosos.

James Franco segura muito bem na direção, sem grandes arroubos narrativos ou maiores pretensões, evitando acertadamente o escracho costumeiro de filmes que faz com seus parceiros como Seth Rogen, e deixa a própria história real conduzir e segurar a atenção. Não tem um brilho de uma grande homenagem ao cinema ou de uma inesquecível comédia, mas é honesto e direto ao ponto. Não é necessário assistir ao The Room para se divertir bastante com o filme, mas a experiência se tornará bem mais completa para quem o fez, especialmente nas recriações (perfeitas) de várias cenas deste "clássico". O Artista do Desastre, que estreia dia 25 de janeiro, é mais uma prova do quanto a arte de se fazer filmes é fascinante, mesmo vindo dos piores profissionais. Há uma cena após os créditos.