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Todas as cicatrizes no corpo ainda são feridas na alma. A alma ferida anda a sua vida toda em busca de outra alma ferida para poder compartilhar seus sentimentos e, acima de tudo, se amarem. É nessa premissa em que Corpo e Alma, que estreia dia 21 de dezembro, da diretora húngara Ildikó Enyedi, se baseia para desenrolar toda a sua trama de romance.

O filme conta a história de Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Morcsanyi Geza), dois trabalhadores de um açougue que, em certo momento, descobrem que compartilham do mesmo sonho, e tentam recriá-lo todas as noites para poderem se encontrar.

O sonho consiste em dois cervos, uma fêmea e um macho, caminhando por uma paisagem gélida em busca de água e comida. O macho tenta se aproximar da fêmea, mas sempre sem êxito. Assim como em Hatari!, de Howard Hawks, esta narrativa onírica dos dois animais representa a relação dos dois personagens principais da trama (o macho representando Endre; a fêmea, Mária), ora se aproximando, ora se afastando. Mária é uma pessoa extremamente fria e quase ausente de sentimentos: quase que uma máquina, sempre pensando em trabalhar e nada mais. Já Endre é o diretor do açougue, tendo sempre que falar com todos os trabalhadores do lugar e está constantemente lidando com problemas e pessoas. Mas, mesmo em suas diferenças, ambos carregam uma característica similar: a introversão provinda de alguma marca pessoal. O personagem de Endre demonstra isso fisicamente, já que possui um dos braços paralisados. Mária, mesmo que não tenha nenhum problema físico, não faz, em hipótese alguma, contato físico com as pessoas, como se aquilo doesse de fato. A representação da dor e da introversão que a diretora realiza é sutil.

Sempre em tons de azul e branco, a paleta de cores do filme reflete diretamente a índole dos personagens. Além do plano gélido (que claramente demonstra a frieza provinda dos sentimentos dos personagens), constantemente os planos e enquadramentos ressaltam uma dicotomia do frio e do ausente (já que, na maioria das vezes, o azul é contraposto pelo branco, que representa apenas um padrão). As roupas de Endre sempre tem algum detalhe em azul, seja na camisa ou em algum acessório que esteja usando. Mária também utiliza cores azuis em suas roupas, mas são bem mais claras e, em alguns momentos, utiliza apenas branco, demonstrando sua apatia em relação a tudo a sua volta.

Como já mencionado, o plano gélido onde os cervos caminham é um ponto extremamente importante no filme. Além de fazer com que a trama aconteça, a narrativa dos animais leva à uma interpretação muito mais profunda do sentimento dos personagens naquele momento de suas vidas. Apesar do sonho fazer Endre se aproximar mais de Mária, ela ainda é uma incógnita para ele, assim como ele é para ela, pois ambos nunca sentiram algo tão profundo assim. O frio que rodeia eles no sono é o mesmo frio que os rodeia na vida real, e o açougue é a perfeita demonstração disso. O já supramencionado filme de Howard Hawks demonstra como as relações animais não são nada diferentes das relações humanas, e Enyedi utiliza o mesmo princípio aqui. A morte dos animais do açougue, mostrada sempre de maneira explícita, representa o interior dos protagonistas, sendo dilacerados por dentro para tentar entender um ao outro, enquanto o sangue, extremamente vermelho, desliza pelos chãos brancos do salão de abate.

Por mais que todos esses pontos sejam fortes características do filme, Corpo e Alma ainda é um romance, e acaba se prendendo muito ao gênero. No final do segundo ato até o fim do terceiro, o filme começa a se entregar às muletas narrativas já bastante conhecidas do gênero romântico. A rejeição, a aceitação, e até a ressurreição (metafórica) estão todos aqui, e acabam não funcionando muito bem, afunilando tudo em um final que, além de pouco satisfatório, esquece muito do potencial que apresentou nos dois primeiros terços de reprodução.

Corpo e Alma é uma obra sensível e tocante, que ensaia em cima do amor e da vida, e como os dois são representados de diferentes formas no cotidiano. Apesar de acabar deslizando um pouco em sua última porção, Corpo e Alma é um filme que entrega o que deseja, de forma pura e apaixonada.