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As batidas do coração. A batida de uma música. A batida de um punho. Todas estas coisas convergem e são relacionadas na história de 120 Batidas por Minuto. A obra dirigida por Robin Campillo, que estreia dia 04 de janeiro, apresenta uma narrativa de amor, fúria e coragem, que transcende a beleza e a técnica que o filme tem a oferecer, tornando-se algo maior, algo sublime.

O longa conta a história do grupo ativista ACT UP Paris, que lutam por ações do governo em relação ao tratamento da AIDS no início dos anos 90. Acompanhando alguns membros do grupo, o filme se desenrola mostrando a dificuldade da luta, além da batalha interna de cada um. A amplitude de protagonistas gera um dos pontos mais interessantes do filme: sua impessoalidade. Ao tratar cada um como peça chave no desenrolar da narrativa, Campillo estabelece uma história concisa e focada, mostrando vários lados da batalha, e criando um laço emocional entre cada um deles, os fazendo personagens importantes e simbólicos para o desenvolvimento cinematográfico.

Assim como no brasileiro Jovens Infelizes ou um Homem que Grita não é um Urso que Dança, de Thiago Mendonça, o grupo se sente oprimido pelas situações que os cercam (afinal, são portadores do vírus incurável, além de fazerem parte de uma minoria, a comunidade LGBT), fazendo-os agir constantemente e se reinventarem em seus combates a cada instante. Se em Jovens Infelizes o grupo de teatro vai ao combate com suas peças, em 120 Batimentos por Minuto os jovens fazem ações consideradas "terroristas" (entre muitas aspas). Em um dos primeiros momentos do filme, os personagens invadem um palco, onde está acontecendo um debate político sobre a AIDS, tomam o microfone do orador, jogam um balão de sangue falso em seu rosto para, logo em seguida, algemarem o mesmo em uma das hastes do palco, o expondo para toda a mídia e pessoas presentes naquele debate. Entre algumas cenas, há inserções dos protagonistas dançando em uma discoteca (mais um sentido para o título do filme). Como num plano surreal, estas sequências servem como um ponto de checagem, uma espécie de porto seguro caótico, onde eles comemoram suas vitórias, choram suas derrotas ou até mesmo extravasam a sua fúria e força de vontade.

A montagem do filme é um de seus pontos mais fortes. Apresentando uma cadência excelente ao guiar a história, a montagem segue uma narrativa não-linear, por vezes. O tempo vai, o tempo volta, mas a inserção de cenas na maneira certa faz com que nada fique confuso, e some ainda mais para a narrativa. Campillo mostra um excelente e sutil trabalho na direção, utilizando muito o primeiro plano para mostrar os personagens e desfocando o segundo plano, reforçando ainda mais a individualidade de cada um, e destacando sua importância.

Apesar de não haver um protagonista central, o personagem Sean (vivido incrivelmente por Nahuel Pérez Biscayart) seria o mais adequado para se encaixar no papel. Dois quartos do filme são extremamente dedicados a ele e aos seus demônios interiores. Não é pra menos: Sean é um dos membros mais ativos do ACT UP, servindo até como fio condutor para a narrativa trocar de personagem vez acolá, uma vez que ele fala e interage com todos eles. Nathan (Arnaud Valois) e Thibalt (Antoine Reinartz) também servem como ícones importantes para a história, representando pontos quase opostos dentro do grupo onde agem.

120 Batimentos por Minuto é um filme inspirador. É uma obra que mostra que o amor é a verdadeira arma para lutar pelo amanhã, e levantar os punhos ao céu em brados de guerra. Campillo mostra muito bem como a técnica é irrelevante e como a beleza não quer dizer nada, mas é o sublime que deve prevalecer, tanto em sua narrativa quanto em sua direção.