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Contos de fadas sempre foram uma grande inspiração para Guillermo Del Toro. O diretor sempre utiliza o sentimento fantasioso, misturado com a brutalidade da vida real, sempre de forma concisa. Desse jeito, acaba criando uma espécie de "conto de fadas para adultos", tocando em temas em que suas inspirações originais não tocariam, ou o fizeram de forma menos explícita. Foi assim com magnífico O Labirinto do Fauno, de 2006, e é assim com A Forma da Água, seu mais recente filme, com lançamento marcado para 1º de fevereiro.

O filme conta a história de Elisa Espósito (Sally Hawkins), uma faxineira que trabalha para uma espécie de base militar de pesquisas nos EUA durante a Guerra Fria. Após o chefe de segurança Strickland (Michael Shannon) fazer uma descoberta de um peixe humanóide, ele o faz de prisioneiro na base, torturando-o sempre quando pode. Elisa acaba criando uma relação com a criatura e tem a intenção de salvá-lo daquele lugar.

A sinopse do filme lembra bastante clássicos como A Noiva do Frankenstein ou O Monstro da Lagoa Negra (principalmente este). Duas pessoas que não são da mesma raça se apaixonam, mas encontram barreiras para viver este amor, justamente pela cultura que cada raça possui. Neste aspecto, A Forma da Água é um filme forte e necessário nos tempos em que vivemos. Elisa é muda desde que um incidente tirou sua voz na infância, então ela não consegue se comunicar com todos ao seu redor, salve algumas pessoas mais próximas a ela, como sua colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer). Isso faz com que ela sinta uma necessidade ainda maior de ter alguém que a entenda na vida, e encontra isso na Criatura, que também está fora do seu local natural e acaba achando refúgio em Elisa. É uma forte e explícita mensagem sobre olhar além dos preconceitos e diferenças, e olhar o que te faz bem na outra pessoa. Por vezes, o filme também toca na ferida dentro do orgulho dos homens, utilizando o personagem de Michael Shannon como um machista que, muitas vezes, maltrata todos ao seu redor, principalmente Elisa e Zelda. E colocar Elisa, uma faxineira, como personagem principal só mostra toda a insignificância de Strickland, o homem "mais importante" no contexto do longa.

Ainda na questão social, o filme toca muito no tema da solidão. Tanto Elisa quanto a Criatura estão sozinhos neste mundo, e um quer, ou melhor, precisa , encontrar o outro. Em uma certa cena, Giles, vizinho de Elisa (vivido por Richard Jenkins) diz que nasceu "ou muito antes ou muito depois de seu tempo", dando força ao fato de que nem sempre nascemos do jeito que queremos, tal qual a Criatura, ou até mesmo a protagonista.

O maior problema do longa-metragem é querer ser clássico até demais. Digamos que o Cinema moderno seja formado a partir das duas grandes mentes da Nouvelle Vague: François Truffaut (com um estilo mais clássico de Cinema, visto nos filmes de Billy Wilder e Frank Capra) e Jean-Luc Godard (e seu estilo caótico e inovador, pegando inspirações em Dziga Vertov e Kenji Mizoguchi). Del Toro certamente seria da escola de Truffaut, com sua trilha sonora constante, cheia de violinos melancólicos e cenas que estão lá para forçar você a sentir algo. Existem muitas dessas cenas em A Forma da Água e, mesmo que o objetivo do longa seja algo do tipo, ele acaba perdendo um pouco de sua força. Logo no início, há uma belíssima cena subaquática mostrando o apartamento de Elisa, enquanto um narrador (seu amigo Giles) começa história, chamando a protagonista de "nossa princesa muda", reforçando ainda mais o caráter fantasioso que a trama tomaria, aparentemente. Mas, são poucas as cenas que tiram proveito desse gênero, e quando elas acontecem, tudo parece falso, afinal de contas, o filme pede para ser levado a sério, e acaba por forçar coisas onde não deveria. É uma história de romance, mas possui um segundo ato bastante costurado à outros gêneros, parecendo outro filme, ou pior: um filme regular.

A Forma da Água é uma bela obra. Sua mensagem ausente de simbolismos e direta é algo necessário neste atual momento do Cinema. Apesar de tudo, é uma obra que tem um impacto pequeno como obra cinematográfica. Ao tentar ser o que não deveria, acaba saindo um pouco dos trilhos, mas ainda assim, é um filme competente de Guillermo Del Toro.