Diego Pinheiro / Allmanaque

Arena Anhembi, São Paulo (SP). Os relógios marcavam 21h45 quando começou a tocar, no background, as músicas que antecediam a entrada do Green Day, após sete anos desde sua última passagem pela cidade. Bohemian Rhapsody foi a música que iniciou a sequência. Por mais que ela tenha sido composta em 1975 pelo Queen, a canção instigou a plateia a aquecer as cordas vocais um pouco mais, afinal, a californiana The Interrupters, banda responsável por dar as honras ao grupo principal, já havia iniciado esse processo com maestria.

Blitzkrieg Bop, datada de 1976 e composta pelo Ramones veio em seguida com um convidado especial no palco. O mascote do Green Day, um coelho que foi personificado pelo baterista Tré Cool, deu o gostinho daquilo que prometia ser um grande show. Correndo de um lado para o outro do palco e instigando a plateia a gritar e levantar os braços aos seus comandos, o mascote desapareceu ao fim da música. O poema sinfônico Also sprach Zarathustra, escrito pelo maestro alemão Richard Georg Strauss em 1986, serviu para que Cool trocasse de roupa e se aquecesse.

Ao seu fim, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool entraram no palco na companhia dos músicos de apoio Jason White, Jason Freese e Jeff Matika já tocando Know Your Enemy, single de 21st Century Breakdown. Mesmo com as pessoas sufocando umas às outras, Armstrong não se preocupou em esperar para começar suas peripécias com a plateia. Logo na música de entrada, o cantor chamou a primeira pessoa do público para o palco, que foi instigado pelo mesmo para mergulhar no público.

Em Bang Bang, um dos singles de Revolution Radio, a plateia gritava, pulava e cantava a plenos pulmões. Entre os repiques de bateria, estouros. Um deles foi responsável por fazer cair a bandeira de fundo e dar lugar outra. Revolution Radio chegou sem espera. Sem tempo de respirar. Na introdução e em seu decorrer, jatos de fogo eram lançados atrás da bateria, mas seu calor era sentido à distância.

Depois, era chegada Holiday. Enquanto Cool a introduzia e era acompanhado por Dirnt e os músicos de apoio, Armstrong aproveitou sua liberdade e gritou: "Não à corrupção. Não ao preconceito. Quem aqui é a favor de Trump?", questionou em seguida e que recebeu, como resposta, vaias altas e claras da plateia, protestando contra o presidente americano.

Em Letterbomb, bastou ouvir a frase de início: "Nobody likes you. Everyone left you. They're all out without you having fun" que a plateia vibrou incessantemente. Armstrong aproveitou a deixa para declarar amor pelo Brasil e pedir respeito mútuo: "Hoje é celebração", gritou ao dar vida para o instrumental da canção. Terminando sua execução, todos os músicos saíram do palco, ficando apenas Jason White e seu violão. Ao observá-lo, o público já sabia qual faixa viria na sequência e o êxtase foi geral. Boulevard of Broken Dreams começou apenas com os riffs executados por White e a plateia fazendo o vocal. Depois de cantado o primeiro trecho, Armstrong e sua gangue voltam ao palco: "Acendam as luzes de seus celulares e as aponte para o céu", pediu

Empolgado, o público foi estimulado a cantar novamente o primeiro trecho. Ao ver a empolgação do mesmo, Armstrong lançou um sorriso de satisfação. "Ainda estamos vivos!", gritou ao ocupar o centro do palco e ser acompanhado por toda a banda no restante da música. Entre o refrão e o respiro, mais uma interação. Armstrong levantou a bandeira LGBT e impôs em tom de ordem: "Não à homofobia!".

Após o espetáculo à parte, Mike Dirnt tomou o centro do palco. Com sua pose e feição de mau, iniciou os riffs de Longview. Enquanto o baixista tocava, Billie Joe olhou fixamente para a plateia. Mais uma pessoa foi levada ao palco.

Em Youngblood, outra do trabalho Revolution Radio, Billie Joe puxou Dirnt para uma curta valsa e, em mais uma de suas demonstrações de carinho pela cidade, cantou: "... She's the cedar in the trees of São Paulo". O ato arrancou sorrisos do mesmo e gritos de apoio da plateia.

Em 2000 Hours, composição de Kerplunk, segundo disco de estúdio, lançado em 1992, o vocalista perguntou: "Quem é fã das antigas do Green Day?". A resposta foi um grito único de afirmação do público, que cantou junto com a banda durante toda a faixa. Durante sua execução, o ânimo do grupo foi contagiante. Tanto que, entre gritos da plateia, Armstrong sacou uma mangueira e atirou água nos cantos direito e esquerdo da multidão. E, antes que se pensasse que a interação tivesse acabado, o músico trocou de arma. Agora estava na posse de uma espingarda que sacava bolas de blusas oficiais do Green Day.

Depois da performance da faixa, a surpresa dos paulistanos. O grupo adicionou outras seis músicas no repertório em comparação com aquele executado na Jeunesse Arena, no Rio de Janeiro (RJ), dois dias antes. Uma boa demonstração de ânimo e excitação com a apresentação que estava sendo realizada. As músicas extras foram Armatage Shanks, J.A.R. (Jason Andrew Relva), F.O.D, que foi tocada pela primeira vez desde 2013, Scattered, Nice Guys Finish Last e Waiting. Só nessa brincadeira, foram abordados 16 anos da carreira do grupo, indo desde Dookie até 21st Century Breakdown. Por outro lado, a iniciativa tirou duas faixas do cronograma. Hitchin' a Ride e She. Essa última, em especial, retirou a satisfação e o contentamento de boa parte das pessoas que estavam no local. Porém, When I Come Around surgiu na sequência para reanimar essa parcela desiludida, que, junto com o restante do público, pulou logo que Billie Joe executou os riffs de guitarra iniciais. Essa agitação contagiou até mesmo o vocalista, que se arriscou em fazer o solo com o instrumento apoiado nas costas.

Em meio a ecos de "olê, olê" realizados pela plateia e repiques de bateria, Armstrong mostrou outra de suas facetas musicais ao tocar gaita na faixa Minority. Em seguida, apresentou o guitarrista de apoio Jeff Matika ao público, momento que foi recebido com uma bandeira caindo na estrutura do palco. Ao pegar, Billie Joe notou que o material era uma declaração a Tré Cool.

Are We the Waiting? começou com o vocalista pedindo para que a plateia desligasse as luzes do celular: "Quero ver todos os rostos lindos desse belo país". Ao mesmo tempo, em forma de medley, apresentou ao público a música St. Jimmy, que foi seguida por Basket Case.

Era chegado o primeiro bis. Todos os integrantes deixaram o palco para, depois de meio minuto, voltarem e executar King for a Day. Com todos fantasiados, o grupo fez uma espécie de jam session com direito a longa interação e a solo de bateria. No midpoint da canção, Armstrong ousou na bateria enquanto Cool arranhou nos vocais. Mesmo com tudo isso, o público já começava a transparecer tristeza por sentir que o show estava chegando ao fim.

Os covers também tiveram direito no longo repertório. Hey Jude, dos Beatles e I Can't Get No (Satisfaction), dos Rolling Stones, foram executadas antes de Still Breathing, momento em que o público pareceu ressuscitar energia visto o longo tempo de puro gogó e pulos intermináveis presenteados por uma chuva de faíscas atrás da bateria. "Quero ouvir a paixão de vocês", gritou Armstrong ao introduzir, em seguida, Forever Now.

American Idiot e Jesus of Suburbia foram a dobradinha improvável para os momentos finais que estavam chegando. Armstrong já parecia cansado, mas as executou com esplendor e vivacidade. Para finalizar, os momentos intimistas. 21 Guns, tocada na maior parte por Billie Joe, seu violão e a plateia, e Good Riddance (Time of Your Life). Nesse instante, pessoas já se abraçavam chorando. "Nós estaremos de volta logo", prometeu Armstrong, dando um pouco de alento aos fãs.

O que foi mostrado no show de São Paulo foi a prova da atemporalidade do grupo e de suas canções. Mesmo com todos os integrantes, inclusive os músicos de apoio, já inseridos na casa dos 40 anos, o que se viu não foram homens cansados, sem performance, desafinados ou mal treinados. No palco estavam seis homens vivos, com ânimo e vivacidade. Tré Cool e Mike Dirnt, em especial, mostraram estar junto ao vocalista Billie Joe Armstrong mesmo depois de sua internação pelo uso de drogas. Um grupo que reafirmou seu espaço, deixando claro que suas letras continuam sendo tão atuais e seus shows tão vivos e eletrizantes quanto àqueles realizados em 1989, quando tudo começou.