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A Forma da Água envolverá todos que assistirem. O filme que estreia dia 1 de fevereiro encanta não só pela fantasia, mas também pelos aspectos técnicos que contribuem para dar o ar místico e fantástico da narrativa. O nome já diz: o espectador se verá submerso por uma história já contada diversas vezes, mas nunca antes entregue com essa forma e maestria. Não surpreende estar concorrendo a 13 prêmios do Oscar, inclusive na categoria de melhor filme.

O diretor Guillermo Del Toro (HellboyO Labirinto do Fauno) segue o estilo de filme com premissas fantásticas que costuma produzir. O romance da narrativa entretanto o afasta do território comum de ação e thriller para algo mais parecido com um romance à la Bella e a Fera. Sally Hawkins (Blue Jasmine) interpreta Liza Esposito, uma mulher muda que trabalha na limpeza de um centro de pesquisa militar dos Estados Unidos. Ela segue uma vida regrada e rotineira até a chegada de uma criatura aquática capturada na America do Sul que desperta seu interesse. Logo, ela percebe que ele é inteligente e capaz de estabelecer uma comunicação, ainda que não através da fala. A dificuldade em se comunicar de Eliza com outras pessoas devido a sua deficiência gera uma identificação instantânea com o ser que também era estranho a vista dos outros e rapidamente inicia-se um romance entre os dois.

A sinopse de A Forma da Água pode transparecer a ideia de um filme parecido com um conto de fadas. Um sinal disso é o fato de ser uma história antiga, passada em 1962, contada por um terceiro. Apesar dessas características um tanto clichê, ela não se detêm ao simples romantismo entre o monstro e a fera. Os personagens coadjuvantes são fundamentais para a quebra dessa ingenuidade e para a construção de uma narrativa mais interessante e criativa. Zelda, interpretada por Octavia Spencer (Estrelas Além do TempoHistórias Cruzadas) e indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, é a amiga de Eliza no trabalho. Ela compensa a falta de fala de sua companheira com monólogos intensos e engraçados que denunciam aspectos da realidade dos Estados Unidos naquela época, como a desigualdade de gênero, social e racial. Esse papel social não se atém somente à sua personagem. Richard Jenkins (Quase Irmãos; O Segredo da Cabana), outro concorrendo à estatueta, mas na categoria masculina, atua como Giles, vizinho de Eliza e melhor amigo. O personagem é um artista que trabalha em ilustrações publicitárias e se encontra em decadência devido à introdução da fotografia na área. A frustração se estende para a sua vida profissional, já que tem que encarar as dificuldades de ser homossexual em uma sociedade ainda extremamente conservadora. Todos esses personagens têm motivos para se sentirem deslocados e inferiorizados em meio à sociedade e, por isso, sentem-se também como uma criatura, fora dos padrões.

O conceito de identificação também está inteiramente relacionado no aspecto técnico da produção. A fotografia de Dan Laustsen chama atenção pela beleza, que contribui para reverberar o gênero fábula, mas principalmente pelo diálogo com o conteúdo do filme, inclusive com as falas. As cores não se apresentam somente como um acessório da narrativa, mas quase como um personagem, fundamental para a fluidez e construção das cenas. O espectador muitas vezes é tomado pelo prazer de identificar elementos que os deem uma dica do que irá acontecer. Pode ser pela fita no cabelo de Eliza, a bala que o vilão, Strickland (Michael Shannon), ingere durante todo o filme ou falas, como "Esse é o futuro. Verde.", proferidas. É um jogo de detetive paralelo ao longa.

A Forma da Água é um filme repleto de minúcias que contribuem para o enriquecimento da obra que, através de um olhar mais superficial, pode parecer simplória. Mas, ao observar com cautela, é possível perceber que não há nada simples em sua composição. Seja a trilha sonora Alexandre Desplat, que ajuda a criar o clima romântico muito parecido com os filmes clássicos da mesma época, ou as cenas que a princípio podem parecer banais, mas logo revelam sua profundidade e conexão com o resto da obra. Del Toro conseguiu com maestria submergir todos em um ambiente que, assim como a água, flui facilmente na sala de cinema.