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Em vários momentos, Em Busca de Fellini parece ser uma releitura de Alice no País das Maravilhas. Não é para menos: o filme se faz ciente disso em diversas passagens. Uma garota, uma jornada alucinante e um objetivo abstrato. Não é apenas nisso que o filme lembra bastante a obra de Lewis Carrol, mas em suas questões visuais, os signos que utiliza, todo o simbolismo por trás da história. Mas, vamos com calma.

Dirigido por Taron Lexton (marcando sua estreia como diretor de longa-metragem), Em Busca de Fellini conta a história de uma garota sonhadora que vive com sua mãe. Ao descobrir os filmes de Federico Fellini, a garota parte em uma jornada para tentar encontrar pessoalmente o diretor e dizer o que pensa sobre seus filmes. Como dito anteriormente, o filme lembra bastante a história criada por Lewis Carrol, com vários dos elementos (já mencionados) sendo utilizados no filme. Além dos temas abordados, o filme tem um toque de surrealismo, inserindo momentos que não fazem muito sentido ou cenas que parecem um sonho febril. Tudo isso referenciando as excelentes obras de Fellini, como 8 ½, A Doce Vida e A Estrada. Apesar de parecer interessante, tudo funciona de maneira muito mecânica. A referência não tem embasamento e são apenas jogadas lá, não em prol da história, mas em prol de uma demonstração de cinefilia por parte do diretor (ou seus roteiristas, Nancy Cartwright e Peter Kjenaas), como se quisesse dizer "olhe pra mim, eu gosto muito de Fellini", deixando as sequências bastante cansativas, com muita informação inserida em pouco tempo. Não que exista algo de errado com cinefilia (ou referências), pelo contrário. O Cinema em si é a criação de algo a partir de tudo que veio antes daquele algo, ou seja, não utilizar referências seria algo inédito. Um exemplo de homenagem à um diretor sem perder a essência é no filme brasileiro JLG/PG, onde Paolo Gregori (também diretor do filme) vai à França para entregar Jean-Luc Godard. O filme em si lembra bastante uma obra de Godard, mesmo que não fique inserindo cenas de seus filmes o tempo todo. A essência do diretor percorre todo o filme. Porém, em Em Busca de Fellini, utilizar referências de maneira tão mundana e pobre, diminui não só o valor da obra de Lexton, mas acaba manchando, de certa forma, as obras de Fellini.

Mesmo assim, o filme se apresenta como uma obra que apresenta potencial por muitas vezes. O significado da busca (revelado no final) é algo realmente comovente e é demonstrado com maestria, fazendo ligação com uma das cenas iniciais do filme. A protagonista Lucy (vivida por Ksenia Solo) é uma garota extremamente tímida e que viveu, a maior parte de sua vida, dentro de casa, vendo filmes com a mãe Claire (interpretada por Maria Bello), sem ter noção nenhuma da vida fora de casa. A perda da inocência de Lucy ao partir em busca do diretor é mostrada gradualmente, em forma de eventos e personagens que aparecem em sua vida, e Ksenia Solo faz um bom trabalho em representar a inocência de Lucy e sua passagem para a maturidade. Tirando Lucy, o personagem secundário tem pouco tempo de tela, pois a protagonista vai viajando de cidade em cidade no decorrer do filme.

Em Busca de Fellini é uma homenagem ao famoso diretor italiano que falha ao tentar retratar o sentimento de suas obras, mesmo que tente muito forte emulá-las. O filme se mostra uma fábula interessante, porém esquecível depois de um tempo, fazendo com que se torne apenas mais um filme em meio de tantos outros no mesmo estilo.