Irracional. Transcendental. Eterno. Esse é o número pi. Aos olhos de Early Auden, é claro. Early é um menino um tanto peculiar - para não dizer estranho - que se encontra com o narrador logo no início de Em Algum Lugar nas Estrelas (DarkSide Books, 272 páginas). John Baker, Jack, ou Jackie (como Early preferia chamá-lo), é um garoto do Kansas que vive com seu pai, de mesmo nome. A história se passa em 1945, pouco depois da segunda guerra mundial que ainda deixa vestígios por todo o mundo, e especialmente no pai John Baker. Jackie perdera a mãe há pouco tempo e, com seu pai mudado após o sofrimento da guerra, ele amadureceu alguns sentimentos dentro de si de forma muito abrupta, e apesar de morarem juntos, pai e filho se sentiam a quilômetros de distâncias um do outro. Quando o ano letivo estava para começar, Jackie é levado para Maine, em um colégio interno só para garotos, chamado Morton Hill.

Poderia ser um ano monótono e esquecível, porém, para a surpresa de Jackie, é iniciada uma amizade – um tanto perturbada no começo – com um menino chamado Early que mudaria sua vida e o salvaria de ser arrastado, como ele mesmo diz no começo do livro. Certo dia Early decide se aventurar para encontrar algumas respostas, e Jackie acaba indo junto. Ao longo da narrativa, é contada também a história de pi, que torna-se um personagem igualmente importante, e sua jornada torna-se real tanto para os meninos, quanto para os leitores. Aqui já não se sabe mais distinguir a realidade e a ficção. Tudo acaba se entrelaçando de forma natural, e os acontecimentos vão fazendo sentido, assim como as constelações, ligando-se ponto a ponto, ou estrela a estrela. A amizade dos dois permeia toda a história, mas são trazidos à tona assuntos como família, sofrimento, dificuldade diante da perda, diferentes formas de enxergar o mundo, entre outros, que são costurados em uma trama de realismo mágico.

Durante a história, a jornada de Early e Jackie se mistura com a de vários outros personagens, tão cativantes quanto eles. Quem já perdeu algum parente próximo, ou pessoas muito importantes, provavelmente se conectará de forma muito intensa com eles. O livro, ao mesmo tempo em que possui gatilhos para esse tipo de assunto, traz palavras certas nos momentos certos que confortam e completam corações perdidos, como o de Jackie, o de Early, ou até mesmo o de John Baker, o pai.

Uma das excentricidades de Early são os dias para ouvir certos cantores, um exemplo é que nos domingos deve tocar Mozart, mas em dias chuvosos sempre é Billie Holiday. A Darkside, editora que lançou o livro, disponibilizou uma playlist com músicas de todos os cantores mencionados no livro, é recomendado ouvir durante a leitura.

Escute a playlist aqui.