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As estátuas greco-romanas nos créditos iniciais de Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name), dirigido por Luca Guadagnino (Um Sonho de Amor) e com roteiro de James Ivory (Uma Janela para o Amor), já trazem um vislumbre do que em essência é o filme: corpo, sensualidade, desejo e beleza. Apresentando uma temática LGBTQ suave, que deixa de lado preconceitos apesar da ambientação do filme, que ocorre na Itália dos anos 80, o longa tornou-se um dos mais aclamados, tanto pelo público como pela crítica, filmes de 2017. Embora dono de qualidades notáveis e história que acerta em cheio as emoções do público, Me Chame Pelo Seu Nome, que estreia dia 18 de janeiro nos cinemas, traz alguns engasgos gerais em seu desenvolvimento, por exemplo o quesito ritmo.

O roteiro de James Ivory, baseado no livro homônimo de Andre Aciman, e a fotografia iluminada de veraneio de Sayombhu Mukdeeprom nos levam até Crema, na Itália de 1983, com suas paisagens campestres e coloridas. Então conhecemos Elio (Timothée Chalamet), um adolescente de 17 anos que leva uma vida preguiçosa ao lado de seus pais e amigos e que passa boa parte de seu tempo apenas lendo, transcrevendo músicas e tocando violão ou piano. O ambiente em que Elio cresce, multicultural ao ponto de todos na casa saberem falar pelo menos três línguas diferentes, destoa um pouco de sua personalidade, que é contida. Só que tudo muda quando seu pai (Michael Stuhlbarg), especialista em cultura greco-romana, recebe um acadêmico chamado Oliver (Armie Hammer), que busca ajudá-lo em uma pesquisa e que rapidamente conquista todos ao seu redor.

Oliver é moldado como uma bela estátua greco-romana perante os olhos aficionados e curiosos de Elio desde as primeiras interações entre os dois. Entretanto, tudo não passa de pequenas sutilezas que tomam uma hora de filme e o tornam um pouco entediante, ainda que, bem lá no fundo, projetem um lampejo de curiosidade por parte do público. É que, justamente por conta do ritmo lento, conhecemos a fundo a personalidade de Elio e desbravamos com ele a sexualidade no auge da puberdade, interagindo com corpos femininos e, posteriormente, masculinos.

Mesmo assim, os eventos ocorridos até a engrenagem para o romance entre os dois não têm grande importância, existindo, dessa forma, diversas cenas que poderiam ter sido enxugadas, aliviando as duas horas de duração. Esse engasgo se torna mais decepcionante quando notamos pontos importantes com pouquíssimo destaque, dentre eles a viagem que os dois fazem juntos nos momentos finais do filme e o momento em que Oliver volta para casa. De um modo geral, no entanto, quando o romance dos dois engrena, tudo toma uma boa fluidez e cenas para lá de bonitas estampam a tela.

Outro problema reside na falta de aprofundamento e interação firme com os demais personagens da trama. Pouco sabemos sobre o próprio Oliver, por exemplo, e por conta disso, a sensação que fica é a de que o relacionamento dos dois "surgiu do nada", ainda que haja, sim, muita tensão sexual, e isso se deve à química entre Hammer e Chalamet, que é simplesmente de tirar o fôlego. Ambos entregaram performances completas nessa produção, em especial Timothée, pois a imersão dele em Elio é cativante.

Assim como em Azul É a Cor Mais Quente (2013), outro aclamado filme com temática LGBTQ, o foco de Me Chame Pelo Seu Nome não é exatamente a dificuldade que se encontra em viver numa sociedade que ainda não aceita homoafetividade, mas sim a descoberta do amor e o ato de se deixar levar por ele. O romance entre Oliver e Elio é tratado com a maior naturalidade possível, assim como deve ser. É isso, somado, ao pacote completo de beleza estética e fotografia, atuações e trilha sonora impecáveis, valendo destacar Mystery of Love, belíssima canção de Sufjan Stevens que definitivamente é a música-tema do longa, que torna Me Chame Pelo Seu Nome uma produção linda e emocionante.

Nos minutos finais, a conversa entre Elio e seu pai, que inclusive deixa claro que tanto ele como a mãe do protagonista estavam cientes sobre o romance com Oliver, fomentam uma reflexão profunda sobre as relações humanas. E depois disso não há como negar, Guadagnino sabe muito bem como colocar na telas dos cinemas uma das coisas que nos tornam seres humanos: nossas emoções.