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O diretor Martin Campbell produzindo um filme com a participação de Pierce Brosnan pode incitar memórias para algumas pessoas. Pierce, conhecido pelos famosos filmes da série do agente 007, estreou como James Bond em 007 Contra GoldenEye, produzido por Campbell há 20 anos atrás. A parceria é retomada com outro longa de ação, O Estrangeiro, mas com uma trama que se difere dos tradicionais do gênero.

Quem fica com o papel de herói dessa vez é Jackie Chan, que também é um ator de longa data quando se trata de filmes de ação. Ele interpreta Quan, um senhor dono de um restaurante chinês que perde a filha em um atentado terrorista esquematizado por uma vertente do Exército Republicano Irlandês (IRA). Sem o único membro da família que ainda lhe restava, Quan é tomado por um desejo de vingança e utiliza seus conhecimentos adquiridos nas forças especiais dos EUA para descobrir os autores do atentado. A principal fonte para encontrar esses nomes é Liam Hennessy (Pierce Brosnan), o vice-primeiro-ministro do Reino Unido e antigo membro do IRA.

As cenas de luta demoram à aparecer e contribuem para que os personagens principais da trama se desenvolvam mais e adquiram uma face mais complexa. Jackie apresenta um lado dramático não muito conhecido, com cenas longas de silêncio e expressões profundas que representam a dor e luto da perda, assim como o momento de fragilidade que normalmente não é revelado em um herói clássico. Liam, por outro lado, apresenta uma dualidade: o seu passado como rebelde participante de um grupo terrorista e o comodismo atual em seu cargo de governo. Outros personagens entretanto aparecem como meros ganchos da trama e permanecem de forma superficial, tanto em seu perfil, quanto na relação entre os outros personagens – como Sean Morrison, o sobrinho do vice-primeiro-ministro, e McGrath, membro do governo e antigo colega de Liam no Exército.

O filme utiliza-se de um contexto histórico existente e ainda atual. O IRA é um grupo que existiu, assim como seus ataques terroristas. Eles foram um grupo católico que tinha como principal objetivo a união do Norte da Irlanda com a República Irlandesa. O exército se dissolveu e assinou um acordo de paz em 2005, mas muitos membros não concordaram com essa resolução e formaram grupos dissidentes, que desencadeiam conflitos intermitentes até hoje. A rixa entre os governantes dos dois países ainda existe e é muito bem retratada por Liam. O personagem apresenta mais uma fragmentação ao ver-se dividido entre dois povos com interesses opostos: a Irlanda e Inglaterra. A sua melhor estratégia é permanecer em um terreno comum e mais seguro para conseguir sua reeleição como vice-primeiro-ministro.

O Estrangeiro, que estreia dia 11 de janeiro, conseguiu sair do convencional filme de ação e se diferenciar através de personagens e contextos mais complexos e multifacetados. Os juízos de valores são fluídos e não muito definidos, principalmente entre Quan e Liam, os quais os conceitos de herói e vilão seriam muito limitadoras para a complexidade dos personagens. A partir disso, podemos observar uma obra que se aproxima um pouco mais do realismo, ainda que com certas restrições.