Louis Garrel, Stacy Martin

Com entrada em circuito nacional no dia 26 de outubro, O Formidável é o mais novo filme do ganhador do óscar de melhor diretor, Michel Hazanavicius, que dirigiu O Artista em 2011, e traz dessa vez uma história centralizada em um personagem específico, Jean-Luc Godard, um dos grandes ícones da Nouvelle Vague. O longa-metragem é uma adaptação do livro Um Ano Depois de Anne Wiazemsky, ex-esposa do cineasta, onde ela separa a imagem do cineasta e o verdadeiro retrato de Godard, um homem comum.

O Formidável conta, na perspectiva de Anne (Stacy Martin), a história do casamento dos dois. Tudo começa na gravação de A Chinesa quando os dois se conhecem e se apaixonam. Os problemas só começam a aparecer um ano depois, quando o movimento estudantil entra em cena e Godard (Louis Garrel) decide mudar o foco do seu trabalho. Ele deixa de ser o inovador, charmoso e diferente homem por quem Anne se apaixonou e se torna um cara arrogante, insatisfeito e revoltado.

Esse é o tipo de filme que se não fosse engraçado, seria trágico. Mas nada acontece por acaso, você vai rir de situações absurdas que parecem ter sido postas inocentemente, mas que são metáforas. Como as diversas vezes que ele tem os óculos quebrados durante as manifestações, que na verdade é uma forma de mostrar o quanto a visão de mundo dele está mudando a partir da quantidade de vezes que seus óculos quebram e ele é obrigado a comprar novos.

O trabalho de direção é sensacional e surpreendentemente irônico. Os mesmos recursos cinematográficos que foram utilizados pelo próprio Godard, os quais o ajudaram a fazer o seu nome, são muito bem utilizados em O Formidável, dando um tom muito metafórico ao filme. Hazanavicius ainda se utiliza de títulos de livros, por exemplo, criando espécies de capítulos que servem para nos localizar sobre o que está acontecendo na história, em que fase eles estão.

Quanto à atuação, Garrel e Martin merecem aplausos. Muito do sucesso desse aspecto se deve à química entre os dois. Garrel aparece nesse filme fora do padrão usual de galã e herói, conseguindo trazer a perfeita imagem de um "escroto", como o próprio personagem afirma quando diz "artistas deveriam morrer aos 35 anos antes de se tornarem uns escrotos, eu já tenho 37". A forma adotada por Louis para falar, de uma forma estranha, como se sua língua fosse presa, traz bem a imagem de palhaço ao personagem, dando o ar cômico que o filme propõe apesar de discursos tão absurdos e irritantes. Já Martin apresenta uma Anne passiva, ela aparece no filme praticamente como uma observadora, considerando que quase nunca se impõe ou expõe realmente como começa a perder a admiração pelo parceiro e como, inevitavelmente, está começando a achá-lo um idiota. Uma cena torna isso explícito e chega a realmente ser cômico é quando eles estão em um restaurante com os amigos e Jean-Luc afirma: "É melhor ser uma puta do que ser casada com um idiota" e instantaneamente olha para a esposa que permanece calada e retraída. Ela consegue manifestar na personagem seus sentimentos através de suas expressões faciais muito bem, o que não é algo fácil ou comum.

O cenário é cheio de cores vivas e transmitem a bagunça presente tanto na época revolucionária que eles estão inseridos, como a está a cabeça e o casamento dos dois e combinam com todas as situações.

Por fim, é um filme que não trás nada de inovador, ou seja, é uma história de um casamento comum e como ele acabou. O que tira da classificação comum são as piadas altamente inteligentes e a forma como toda a situação é tratada, o uso dos planos sequenciais, os tipos de cena, etc. Tudo de absurdo ganha um ar extremamente cômico, o tom metafórico e inclusive a ironia de Godard sempre reclamar de atores, mas viver em eternos personagens criados por ele. A grande pegada do filme é que apesar de parecer uma biografia, ele não é, assim como o quadro A Traição das Imagens, que mostra um cachimbo e logo abaixo tem escrito "Isso não é um cachimbo", porque, de fato, apesar de ninguém notar, aquilo não é um cachimbo, é um quadro. É um filme simpático sobre um cara antipático.