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Pantera Negra fica dentro das expectativas como filme de ação, mas impressiona com algo mais. Além das lutas e todo o enredo heroico, Ryan Coogler conseguiu levantar questões relevantes sobre tradição e predominância da ciência; fronteiras e imigrações. Com um elenco principal de figuras marcantes e com forte representatividade de negros e mulheres, o longa-metragem, que estreia dia 15 de fevereiro, mostra que pode ser mais do que um filme blockbuster.

O príncipe do T'Challa (Chadwick Boseman), após a morte de seu pai, é coroado Rei de Wakanda. O reino não tem nenhuma visibilidade nacional e é conhecido somente por sua agricultura. Mas, secretamente, possui a tecnologia mais avançada do planeta, que permite uma boa qualidade de vida para todos os habitantes do local. Tudo isso graças ao metal raro Vibranium, o mais resistente do mundo e existente somente naquelas terras. Ulysses Klaue (Andy Serkis), um inimigo antigo, rouba parte desse metal e o utiliza para ganhar poder e exercer o mal. O novo rei, junto com a sua equipe de mulheres altamente qualificadas, parte para os Estados Unidos para combatê-lo e descobrem segredos do governo passado que revelam um inimigo muito mais perigoso.

Paralelamente a esse jogo de poderes típico, há coadjuvantes que reanimam o interesse do telespectador. Lupita Nyong'o (12 Anos de Escravidão) faz o papel de Nakia, uma espiã de Wakanda que se recusa a casar-se com seu amor, o Pantera, e abdicar da profissão que ama. Outro destaque é Danai Gurira (The Walking Dead), comandante da força militar, marrenta e, muitas vezes, engraçada. Mesmo enquadradas em personagens rigidamente construídos, elas conseguiram inovar com excelentes atuações. A cena em que estão na Coreia do Sul junto com Pantera surpreende como uma das melhores do Pantera Negra e supera o momento da luta final que, como filme de ação, permanece como mais do mesmo.

Outra surpresa agradável do longa é o figurino que, além da beleza estética, é muito bem trabalhado conceitualmente. Ele consegue misturar elementos africanos com um estilo futurista, que representa a modernização da cidade de Wakanda. Espelha muito uma das reflexões do Pantera Negra: o choque entre a tradição e a modernidade (que acompanha a globalização). A irmã do Pantera Negra, Shuri, interpretada por Letitia Wright (Black Mirror), revela um certo desdém à alguns elementos do passado e encontra-se imersa nas novas evoluções tecnológicas. Já Okoye (Danai Gurira) permanece fiel aos ensinamentos que perpassam gerações.

Esse choque é uma das principais motivações do conflito entre o herói e o principal vilão, Erik Killmonger, interpretado por Michael B. Jordan (Creed: Nascido Para Lutar). O cultural e o moderno estão presentes em qualquer civilização que tenha contato com o mundo externo. É, portanto, uma questão muito real e presente para o espectador, que acredita e, de certa forma, concorda com determinados pontos levantados por Erik. Já o personagem Everett Ross (Martin Freeman), um agente do FBI que se torna aliado do Pantera, aparece superficialmente, como uma peça desencaixada do resto do filme. Talvez seja uma forma de criar uma primeira ligação benéfica entre os EUA e o reino africano, mas a parceria inusitada não consegue ser tão bem construída.

O novo pode causar estranhamento, assim como o desconhecido, medo. Permanecer com as fronteiras fechadas parecia a melhor solução para o pai de T'Challa (Pantera Negra), mas alguns questionamentos começam a ocorrer a respeito da realidade fora da terra de Wakanda. Deve-se fechar os olhos para a crise humanitária que ocorre ao redor do mundo? Levar o benefício do metal para outros países ocasionaria na salvação ou a destruição da humanidade? Seria com certeza um risco a paz e harmonia interna. São questionamentos válidos para um mundo muito além do dos super-heróis e, por isso, a trama consegue sair do ordinário e reanimar o público que já estava anestesiado com os padrões de narrativas na Marvel. Há, no entanto, uma conclusão para todos esses questionamentos que não surpreende. Um desfecho necessário para estabelecer um gancho para o próximo filme: Vingadores: Guerra Infinita.