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Em vários momentos, The Post: A Guerra Secreta, parece um thriller político feito nos anos 70, como Todos Os Homens do Presidente, de Alan Pakula, ou até mesmo A Conversação, de Francis Ford Coppola. Sua temática, seus movimentos de câmera clássicos até as escolhas narrativas do filme. Apesar de sua história realmente se passar na época setentista, a obra, que estreia em 01 de fevereiro, combina todo o aprendizado de Steven Spielberg até esse ponto, fazendo com que seja uma obra atemporal e viva.

O filme conta a famosa história dos Pentagon Papers, documentos ultra secretos do governo dos EUA de um estudo sobre a história do planejamento interno e da política nacional norte-americana sobre a Guerra do Vietnã. O vazamento destes documentos faz com que Kay Graham (Meryl Streep), que está a frente do The Washington Post, e o editor chefe do jornal, Ben Bradlee (Tom Hanks) travem uma batalha entre a imprensa e o governo americano.

Frenético, o filme mostra uma mão firme por parte de Spielberg, fazendo de The Post sua melhor obra desde Munique, de 2006, com sua montagem belíssima e uma coordenação de câmera que nos fazem lembrar o por que de Spielberg ser tão influente e elogiado no meio cinematográfico. O diretor apresenta uma impecável mise-en-scene, colocando e tirando atores e objetos do cenário de uma forma maestral, e que sempre levam o filme de um ponto a outro, sem perder um ritmo. Uma das rimas de mise-en-scene mais utilizadas no filme é a da personagem de Streep entrando em salas de reunião, sempre com a câmera acompanhando-a por trás, e, ao abrir, se vê rodeada por homens de terno, olhando pra ela com certa cobrança. Este tipo de composição se repete por várias vezes durante o filme, simbolizando a pressão de Graham, primeira mulher a frente de um jornal na época, diante de todos aqueles banqueiros, políticos e magnatas, mas ainda assim, sempre mantendo sua compostura e firmeza. Isso, claro, se deve ao fato da excelente atuação de Meryl Streep como Kay Graham. Streep compõe a personagem com franqueza, a fazendo uma mulher que, mesmo se sentindo oprimida pelo meio, consegue subverter pensamentos e opiniões dos outros sobre ela. Com certeza é uma das melhores escolhas de papel para Meryl.

Escrito pela novata Liz Hannah e Josh Singer (que já havia escrito um filme com a mesma temática, o vencedor do Oscar Spotlight: Segredos Revelados), The Post é extremamente redondo, conseguindo manter uma linha narrativa bem fechada, apresentando personagens na hora certa e ativando acontecimentos e revelações apenas quando necessário, nunca deixando nada barato. Além do mais, a temática da liberdade de imprensa versus um governo opressor nunca foi tão atual, fazendo o filme ganhar ainda mais força em seus simbolismos. Apesar de tudo, o filme ainda sofre do mesmo sintoma que rodeia boa parte dos filmes de Spielberg nas últimas duas décadas, que é o seu final fantasioso. Os filmes do diretor sempre tendem a acabar do mesmo jeito: com uma vitória, ou uma lição de moral, acompanhado de uma música em tons maiores, para aumentar ainda mais o sorriso do espectador. Mesmo não acontecendo exatamente desse jeito (para evitar revelações, mesmo sendo uma história que aconteceu de verdade há mais de 40 anos), isso ainda está presente, fazendo o filme perder um pouco de sua credibilidade.

The Post: A Guerra Secreta é a volta de Steven Spielberg como um excelente diretor. Seus últimos filmes, como Ponte dos Espiões e Lincoln haviam deixado bastante a desejar, mas o diretor provou que ainda consegue se reinventar com uma história excelente de jornalismo investigativo e combate à opressão. Mesmo que não traga nada de novo à mesa, é excelente ver que um grande diretor voltou ao patamar de onde nunca deveria ter saído.