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Quando um filme é atingido por polêmicas durante sua produção, sempre há a grande possibilidade de que ele acabe ofuscado ou até destruído pelos problemas dos envolvidos. Difícil saber o quanto isso afetará o destino desta nova obra de Ridley Scott.

Todo o Dinheiro do Mundo, que estreia dia 01 de fevereiro, se baseia na história real envolvendo o sequestro do adolescente John Paul Getty III (Charlie Plummer), neto do homem mais rico do mundo na época, o magnata do petróleo Jean Paul Getty (Christopher Plummer), que chocou a todos quando simplesmente se negou a pagar pelo resgate. Para intensificar a negociação, os sequestradores enviam uma das orelhas do jovem para a imprensa, o que chamou ainda mais atenção para o caso.

É no personagem ganancioso e inflexível do velho Getty (justamente o melhor) que veio o grande problema. O milionário foi interpretado por Kevin Spacey, inclusive usando uma pesada maquiagem, e tendo seu devido destaque nos trailers. Porém, as sérias denúncias de assédio e abuso sexual contra o ator pegou todos de surpresa. Num período de intensa discussão sobre o tema, e onde boa parte das pessoas não conseguem separar obra e autor e avaliam filmes de acordo com a conduta dos envolvidos, a solução foi retirá-lo (ainda mais com possibilidades de premiações, que também poderiam boicotá-lo). Assim, coube a Christopher Plummer a tarefa de substituí-lo, refazendo às pressas suas cenas. Quando tudo parecia "consertado", novas polêmicas vieram, como Mark Wahlberg (que faz um intermediário entre o milionário e os raptores) ter levado uma boa grana para as cenas refeitas enquanto o resto do elenco trabalhou por um valor simbólico. Isso sem falar em um parente de um dos sequestradores que tenta processar o filme por supostas inverdades. Pelo visto os bastidores tem mais material explosivo que a fonte original.

Todo o Dinheiro do Mundo acaba valendo mesmo é por Christopher Plummer. O ator eleva o filme sempre que aparece e há uma sensação de que deveriam haver mais cenas (é bem provável que para as refilmagens tenham reduzido a participação do personagem). Seus gestos e olhares são desconcertantes, sua voz não possui firmeza quando diz amar alguém, mas apesar de toda insensibilidade, há um vislumbre de que existiu uma humanidade ali, agora soterrada pela ganância e apreço aos cifrões e objetos. A fotografia e direção de arte fazem questão de exaltar isso, com sua mansão de aparência melancólica e ambientação soturna, fria e solitária como sua alma.

Uma pena que o resto do filme não encontre tal equilíbrio. Michelle Williams, como a mãe do rapaz sequestrado, é desperdiçada por culpa do roteiro e seus diálogos, de poucas notas e expressão. Já Mark Wahlberg, já naturalmente limitado, aqui soa mais deslocado do que nunca, pelo tipo de filme no qual não se encaixa de maneira alguma. Simplesmente não convence e tampouco se consegue levá-lo a sério. Já os lados do jovem e dos sequestradores são sempre apresentados de forma rasa. Além disso, Scott não aproveita o potencial da ótima história, e não tira a tensão de cenas que deveriam ser nervosas e nem emoção dos momentos mais fortes, a condução é sempre engessada, como se nunca arriscasse sair do produto burocrático, o clímax também é estranhamente apressado. Com um tratamento mais dedicado e também mais focado em algum ponto específico, não seria difícil imaginar o quanto o filme poderia ter sido memorável, o que o faria ter mais visibilidade que suas denúncias. É um passatempo que funciona, graças mesmo a Plummer, mas não marca.