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Grupo batalhou e encontrou sua identidade sonora

Em 2004, durante a pausa da banda de metal cristão Creed, seus integrantes Mark Tremonti, 43, Scott Phillips, 44, e Brian Marshall, 44, somados ao ex-Mayfield Four, Myles Kennedy, 48, formaram o supergrupo Alter Bridge

Em 13 anos de estrada, o Alter Bridge já se tornou referência na indústria fonográfica, sendo considerado por diversas publicações uma das maiores bandas de metal da sua geração. Para justificar seu sucesso, o grupo viaja mundo afora para divulgar seus trabalhos e sua música.

Ao todo, são cinco álbuns de estúdio já lançados. One Day Remains (2004), Blackbird (2007), ABIII (2010), Fortress (2013) e The Last Hero (2016). E foi com essa discografia que o supergrupo aterrissou pela primeira vez no Brasil em setembro deste ano. Como parte da The Last Hero World Tour, o Alter Bridge passou por cidades como Curitiba (PR), no dia 21, São Paulo (SP), como parte integrante do festival São Paulo Trip, no dia 22, e no Rio de Janeiro (RJ), completando o lineup do Rock in Rio, no dia 22.

Para ficar a par da discografia de estúdio do Alter Bridge, abaixo seguem análises de cada um de seus cinco discos, apresentadas por ordem de lançamento:

One Day Remains (2004)
 

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Como disco de estreia do grupo, ele vem com questões que deixam claras as influências do Creed trazidas na bagagem sonora de Mark Tremonti, guitarrista e segunda voz, Scott Phillips, baterista e Brian Marshall, baixista. Myles Kennedy aparece aqui como integrante decisivo na construção de uma nova identidade, mesmo com a equipe recebendo o respaldo da Wind-up Records, a gravadora da banda de origem de Tremonti, Marshall e Phillips.

As letras e melodias de músicas como In Loving Memory, Open Your Eyes e Broken Wings dão a impressão de que, após suas respectivas introduções, se ouviria a voz de Scott Stapp, 44, vocalista do Creed, visto a tamanha semelhança de estilo. Mas aí se ouve o batizado Myles Richard Kennedy, que traz consigo outra técnica vocal e outras influências musicais.

Kennedy tem uma base firme no blues e no rock clássico, se influenciando muito em Led Zeppelin, fator que possibilita uma fusão com a bagagem thrash metal trazida por Mark Tremonti, que se inspira em grupos como o Slayer. É essa união que começa a surtir efeito na criação de uma identidade própria.

Visto isso, One Day Remains é um disco em que o potencial individual de seus quatro integrantes é evidenciado na criação de grooves, riffs e extensões vocais. São essas características que possibilitam a criação de músicas como Watch Over You, Down To My Last, Shed My Skin e Metalingus, as quais dão ao disco um som mais pesado, ficando bem na divisa do metal com o heavy metal. Tais composições trazem trazem uma perfeita interação entre uma sonoridade marcante, com trechos instrumentais bem trabalhados e uma presença vocal precisa.

The End Is Here, faixa que encerra o disco, é o melhor exemplo para para mostrar que o grupo está no caminho de encontrar uma sonoridade própria. Logo na introdução, um solo de guitarra trazido por Mark Tremonti, o qual recebe o apoio de Myles Kennedy com seus acordes em eco no background, faz a ponte entre para trechos de suspense na canção. Um suspense que explode em um refrão em que os músicos provam que a química entre eles foi estabelecida. Dando continuidade, já próximo de seu fechamento, Kennedy faz ondulações vocais que acompanha um instrumental gritante, que explode em uníssono antes de dar entrada à última passagem do coro. Um grand finale. 
 

Blackbird (2007)
 

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Podemos dizer que foi com esse disco que o Alter Bridge alcançou o reconhecimento esperado. Com composições e sonoridade mais amadurecidas, o supergrupo se mostrou unido à química construída. Prova disso podem ser a 13ª posição na Billboard 200, nos EUA, a 4ª posição na Billboard Rock Album devido a vendagem de 47 mil cópias logo na primeira semana de lançamento, e a 47ª posição na UK Album Chart.

É notada uma sonoridade gritante de Blackbird com relação a One Day Remains. Uma espécie de libertação sonora que pode ser explicada pela mudança de gravadora. Aqui, o Alter Bridge responde à Universal Records, a qual deu ao supergrupo uma maior tranquilidade para testar novos horizontes e se aprofundar na gana de fazer um disco reconhecido na indústria fonográfica e no cenário do metal.

Logo em Ties That Bind, canção que abre o disco, o supergrupo já mostra indícios de um som mais pesado ao se ouvir a introdução de Mark Tremonti com riffs de thrash metal. A canção como um todo funciona como um aviso. Um cumprimento de boas vindas aos ouvintes com um novo som em processo de estruturação.

Come to Life vem em seguida com uma pressão entre baixo e guitarra que funciona como ponte para uma introdução de pressão. Na faixa, uma surpresa. Até a guitarra de Myles Kennedy traz riffs mais pesados no refrão. Nos momentos finais, a interação entre os músicos se torna muito semelhante à apresentada na faixa The End Is Here. Ambas apresentam um coro em que as guitarras, juntas, acompanham uma bateria de peso ao lado do som do baixo, que dá um apoio preciso aos grooves.

Com solos harmônicos e uma guitarra base limpa, Buried Alive vem como promessa de hit. É um som de metal com solos bem trabalhados e repiques de bateria bem colocados por Scott Phillips. Mas neste disco de 13 faixas, a galinha dos ovos de ouro ficou com a faixa-título.

Blackbird é como se fosse a canção de Myles Kennedy e Mark Tremonti, somente. Nela, ambos se destacam perfeitamente em suas posições. Com um som de metal psicodélico, a faixa traz um mix claro de rock clássico e thrash metal. Grandes extensões vocais de Kennedy, o qual se mostra envolvido na técnica belting, e um instrumental de peso, fazem dos oito minutos de duração da música algo mais do que o esperado para o disco.

A faixa-título tem a presença de um instrumental  com guitarras gritantes e uma base bem sincronizada, além de uma harmonia que faz com que a canção fuja de estereótipos e sensos comuns. Não é a toa que essa é a composição mais presente nos setlists do supergrupo até os dias de hoje.
 

ABIII (2010)
 

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É chegado o terceiro disco. Neste trabalho, o supergrupo mostra aos fãs aquilo que ambos estavam esperando. Uma identidade sonora fresca evidenciada na faixa de abertura Slip To The Void, a qual apresenta uma introdução minimalista e guitarras gritantes.

Isolation é a próxima faixa. Nela, são percebidos frases de metal com um instrumental bem sincronizado, guitarras gritantes, grandes extensões vocais, riffs rápidos e uma letra que traz uma mensagem construtiva. Seus quatro minutos mostram o típico som do Alter Bridge, um metal melódico.

Com o apoio de outra gravadora, a Roadrunner Records, o supergrupo apresenta a faixa Ghost Of Days Gone By, uma canção de apelo comercial. Por essa razão, a canção alcançou a 4ª posição na Hot Mainstream Rock Tracks da Billboard, nos EUA. Também com uma pegada comercial, All Hope Is Gone, por outro lado, traz ligeiras diferenças.

A começar por influências do speed metal que se fazem presentes em alguns trechos da música, a qual recebe uma espécie de turning point aos dois minutos. O momento chega com uma guitarra sombria e uma voz em suspiro ecoando ao fundo que são encaminhadas para um instrumental explosivo e acelerado.

Como um todo, ABIII veio para mostrar quem é o Alter Bridge. Um supergrupo de influências no speed metal, heavy metal, rock clássico e psicodélico que conseguiu fazer com que o disco alcançasse a vendagem de 80 mil cópias no Reino Unido. Com isso, o trabalho é, na região, considerado um disco de prata. 
 

Fortress (2013)
 

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No disco seguinte, o Alter Bridge já está mais do que inserido na comunidade mundial do metal. E Fortress é um grande exemplo disso e de como conseguir combinar os subgêneros do rock. Nele estão presentes influências do hard rock, heavy metal, thrash metal e speed metal. Além disso, as técnicas vocais de Myles Kennedy estão mais aperfeiçoadas, o deixando com um maior potencial. Mark Tremonti também se mostra mais habilidoso na criação de riffs rápidos e penetrantes.

Dando continuidade ao sucesso já estabelecido em Blackbird e mantido em ABIII, Fortress alcançou a 12ª posição na Billboard 200, vendendo 30 mil cópias nos Estados Unidos durante a primeira semana de lançamento. No aplicativo de música da Apple, iTunes, o disco foi o mais vendido do gênero rock daquele ano.

O início de Fortress vem com Cry For Achilles, canção que traz uma boa combinação entre a voz de Kennedy, os riffs de Tremonti, os grooves de Scott Phillips e os acordes de Brian Marshall. Essa interação faz do som uma versão metalizada de algo que poderia ser uma música do Led Zeppelin.

Addicted to Pain vem com um speed metal na sua introdução fazendo aponte com frases de metal e thrash metal. Ela é uma balada de metal em que Myles Kennedy, novamente, faz bom uso da técnica belting, emitindo voz alta, clara e com boas intercalações de notas agudas, sem desafinar. Com essa tática, Kennedy faz com que o Alter Bridge saia do senso comum que acredita que bandas de metal devem ter vocais que berram.  Com ela, o supergrupo traz outro tipo de perspectiva ao subgênero.

Com uma velocidade reduzida, mas acompanhada de pressão de destaque, Bleed It Dry chega como um grito de socorro frente ao comportamento consumista e capitalista dos Estados Unidos. É um som de protesto enfático que dá passagem à Lover, próxima música praticamente criada por Myles Kennedy.

Com guitarras bluesadas e grooves mais calmos, a faixa vem acompanhada de uma letra de superação. No refrão, além de uma interação entre os instrumentos, o protagonismo de Myles Richard Kennedy chega com um canto marcante. E por fim, na última interação do coro, uma bateria mais bem trabalhada aparece junta a gravações duplas de voz.

Enquanto Lover foi uma música com protagonismo de Kennedy, Waters Rising vem com uma surpresa aos fãs. Nela, o guitarrista Mark Tremonti faz a voz principal, enquanto Myles Kennedy assume a segunda voz. Criada praticamente por Tremonti, a música tem um refrão em que houve um maior cuidado com o instrumental.

É nele que se pode dizer que, mesmo como personagem secundário no quesito vocal, Kennedy rouba a cena nos primeiros segundos que participa. Porém, o destaque é voltado para ele quando a canção pede uma participação mais enfática do vocal. No geral, Waters Rising é uma música teste para Mark Tremonti.
 

The Last Hero (2016)
 

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O trabalho de estúdio mais recente é também  o primeiro de protesto a ser lançado pelo supergrupo e o de estreia ao lado da gravadora Napalm Records. Com letras marcantes que trazem o posicionamento do Alter Bridge frente ao cenário político dos Estados Unidos e mundial, a sonoridade do CD é bem elaborada.

Show Me A Leader é a canção de abertura. Com refrão enfático, a letra faz uma intimação para que o líder seja visto e critica as questões políticas de manipulação e de mentiras contadas pelos mesmos. Um hino de revolta contra a cultura partidária e governamental que são presentes em todo o disco.

Chegando ao número um da lista da New Zealand Heatseekers Albums, o disco ainda traz canções como The Other Side. Ela conta uma suposição do que pode acontecer no leito de morte dos líderes políticos que ludibriam o povo. A canção ainda brinca com a ideia de que os presidentes ao redor do mundo assumem a posição de Deus quando em vida. Ao falecerem, os líderes percebem que não existe paraíso como prêmio pelo que fizeram durante seu posto em vida.

My Champion abre a temporada de baladas do disco, com solos harmônicos e limpos somados a uma letra de superação e incentivo. Sua identidade ainda está atrelada ao protesto, mas é mais leve em comparação com as demais do disco. O mesmo acontece em You Will Be Remembered. Este é um som com solos trabalhados que, junto à letra, chegam ao ponto de emocionar. Com a mensagem de que quem batalha pelo que quer sempre será lembrado, ela é, sem dúvida, a melhor faixa do trabalho.

Contra a manipulação, contra a mentira, contra a cultura política e contra o governo corrupto. É com palavras de ordem que The Last Hero se torna o melhor trabalho do supergrupo. A evolução na qualidade das composições e completo amadurecimento na criação sonora comprovam esse argumento.
 

Fora os discos de estúdio, o Alter Bridge já lançou três discos ao vivo. Em 2009, o supergrupo gravou Live at Amsterdam. Três anos depois, em 2012, é lançado o Live at Wembley Stadium. Este, até aquele ano, foi o show de maior público já feito pela banda. E em setembro deste ano, foi lançado Live at O2 Arena + Rarities, batendo o recorde de público estabelecido no disco anterior.