Johann Sebastian / Allmanaque

O Allmanaque foi hoje, dia 11 de novembro, conversar um pouco com Pablo Giorgelli, o diretor do filme Invisível, e ele contou de onde surgiu toda essa ideia e como foi o processo de criação do filme.


O que o filme significou para você?

"Ainda não sei o que significa. Um filme é como um filho, então nós amamos, mas para mim o importante do filme é que ele fala sobre a adolescência e tem a ver com a minha própria adolescência, essa é a origem do projeto. Ele fala sobre esse período instável, a solidão que está presente nele, o desamparo, a falta de comunicação com o adulto, é um momento que você pode ficar um pouco perdido, pois você sabe que já não é mais uma criança, mas também não é ainda um adulto. Aí havia algo que me interessava e isso me pôs em contato com a minha própria adolescência e com certa sensação de angústia que às vezes temos nesse momento da vida."

O que você achou do processo de apropriação do universo feminino?

"Eu não sabia muito bem sobre o que eu ia falar, não sabia o que me interessava, mas quando comecei a desenvolver surgiu um personagem feminino, uma adolescente, e isso me surpreendeu, foi algo que me interessou, então resolvi seguir essa intuição, e logo surgiu a ideia da família, do trabalho etc. Com tudo isso, você começa a organizar o roteiro, e o ponto mais difícil foi conseguir ver tudo isso na perspectiva de uma mulher, de uma adolescente, Ely, mas pouco a pouco fui entendendo, fui conhecendo, e entrando nesse universo. Foi um trabalho um pouco louco, e um pouco de ator, porque fui tendo que conhecer e entender essa personagem bem para poder mostrar o filme a partir de seus olhos. E muitos colaboradores me ajudaram nessa pesquisa, eu escrevi o roteiro com uma mulher, inclusive, Maria Laura, isso ajudou muito. Outra coisa que ajudou, foi pensar na minha própria casa, na minha mãe, na minha mulher e em minhas filhas. Com isso surge a questão da maternidade, e junto à maternidade surge a gravidez e junto à gravidez, surge o aborto, ‘fazer ou não fazer?’. E assim o roteiro começa a se organizar de verdade."

Você tem um olhar muito sensível e humano, o que é raro hoje em dia, de onde vem tanta sensibilidade?

"É uma pergunta que não posso responder. Isso é o que é, todos somos humanos e entendemos nossa humanidade, essa é a minha nesse momento. Eu tive que desenvolver esse filme agora, eu não tinha como desenvolver isso quando era mais novo. Sempre quis ser um diretor, mas eu não sabia o que contar, eu não encontrava o assunto. Eu vou vivendo e encontrando os assuntos que me interessam, que têm a ver com a existência com as pessoas. Talvez seja esse o motivo da humanidade e da sensibilidade, ou não, mas nós precisamos nos conectar com determinadas coisas em determinados momentos."

Por que esperar seis anos para lançar o segundo filme?

"Foram dois anos de roteiro. Preparar esse filme me tomaram 4 anos e meio. Precisei de tempo para pesquisar e até mesmo me transformar em Ely. Precisei estudar, entender, falar com adolescentes que me contaram suas histórias. Mas logo que a atriz apareceu, Mora, que interpreta Ely, também trabalhei muito com ela, essa visão feminina e com Maria Laura, com quem escrevi o roteiro, gosto de trabalhar com várias pessoas que me dão várias visões diferentes. Eu preciso de tempo para realmente entender e para encontrar a alma do filme, e contada por esse ponto de vista preciso desaparecer, eu não existo, sou Ely, preciso entrar na realidade dela. O tempo me permitiu ver que o filme precisava ser assim, direto, sem efeitos, distrações e narrativas paralelas, precisava ser focado em Ely e precisava que contasse o conflito interior de forma simples. Também precisava saber como desenvolver uma obra que tivesse uma linguagem acessível, queria que fosse um filme popular, que todos pudessem ver e entender, não elitista."

O aborto é uma questão muito polêmica que é abordada no filme. Algum motivo específico para falar sobre ele?

"Sim, é muito polêmico. Muitos acham que é um filme sobre o aborto, mas essa não foi a minha intenção apesar dele ter uma presença muito forte no longa-metragem. Mas não é, na minha opinião, um filme sobre aborto, é um filme sobre a adolescência, sobre a falta de comunicação durante essa fase com o mundo adulto, sobre a falta de uma figura adulta no mundo adolescente, sobre a solidão, sobre o desamparo e a busca de uma identidade."

Qual foi o objetivo de abordar o filme num contexto tão pouco visto como o latino?

"Acho que a Argentina e o Brasil estão em momentos mais parecidos do que pensamos. As questões políticas, sociais e econômicas. E aí está algo que o filme conta que eu me interessava. Há essas questões que estão sempre muito presentes na nossa realidade, de países latinos. Os personagens são influenciados pelo contexto que estão, e nós somos influenciados, esses cenários têm consequências diretas sobre as pessoas e isso é um assunto importante. Se o filme se passasse na França, seria tudo diferente, mas eu quis mostrar essa realidade que é pouco vista e pode ter uma comunicação especial e diferente com os espectadores daqui. Ele também mostra essa cultura patriarcal e de certa forma a questão do gênero."

Como você se sente ao ver seu segundo trabalho pronto?

"É um momento muito raro. Por um lado estou muito leve e contente e por outro lado é um momento muito agitado, de muita expectativa, ansiedade e vulnerabilidade, é um momento em que me sinto inseguro. É uma mescla, mas estou muito contente porque é o primeiro filme depois de Las Acácias, que foi um filme que foi visto no mundo e ganhou muitos prêmios e também foi um momento muito raro, eu não sabia se ia conseguir fazer outro filme, sempre pensei que seria só um, mas são dois hoje e isso já me deixa muito feliz."
 
Produzido no Brasil pela Sancho&Punta, Invisível, que é uma coprodução Argentina, Brasil, Uruguai e França estreou dia 9 nos cinemas.